2026-09-10 | Notícias
Entre antigas pontes de granito, moinhos centenários e pequenas cascatas, o Rio Leça revela uma das paisagens mais surpreendentes da Maia. Um percurso onde a natureza e a memória se encontram a cada passo.
A Ponte de Alvura, construída no século XIX, é um dos lugares mais emblemáticos desta paisagem e um verdadeiro motivo de orgulho para a população local. Mais antiga é a Ponte do Arco, uma pequena ponte medieval em granito, de arco de volta perfeita, junto à qual encontramos vestígios de antigos moinhos que testemunham a importância que o rio teve na vida das comunidades.
Ao longo do seu percurso, o Leça surpreende também pelas suas cascatas naturais, formadas pelo curso encaixado e inclinado do rio. São recantos onde a água, a pedra e a vegetação criam cenários que convidam a parar, observar e desfrutar.
Depois de décadas em que o Rio Leça esteve entre os rios mais poluídos da Europa, o cenário está a mudar. As recentes iniciativas de recuperação e valorização do rio estão a devolver-lhe espaço, vida e protagonismo, transformando-o novamente num lugar de passeio, fruição e encontro com a natureza.
A memória desta relação entre o rio e as populações permanece nos seus muitos moinhos. Entre eles destacam-se os Moinhos do Pisão e do Pinto, ligados às respetivas pontes e ao lugar de Alvura. Nos Moinhos do Pinto encontra-se uma estrutura particularmente curiosa: um pequeno moinho com telhado de granito, raro e muito bem conservado. Nas proximidades surge a chamada Casa dos Sete Moinhos, um conjunto de grande dimensão que funcionava com quatro moinhos de rodízio, distribuídos por dois pisos e equipados com 23 rodas. Apesar do nome, os “sete moinhos” correspondem, na realidade, às sete saídas de água que ainda hoje podem ser observadas no rio.
O Leça foi também, durante séculos, um rio abundante em peixe. Barbos, bordalos, escalos, bogas e trutas faziam parte da fauna piscícola registada nas memórias das antigas paróquias de Águas Santas e Milheirós.
E é precisamente em Águas Santas, no lugar de Ardegães, que encontramos outra história singular ligada ao rio: a casa e o moinho associados a Carolina Michaëlis de Vasconcelos, uma das grandes figuras da cultura portuguesa e pioneira entre as mulheres na academia nacional.
Nas margens do Leça, a família Vasconcelos encontrava um refúgio para descansar e desfrutar da natureza. Para Carolina Michaëlis, este ambiente proporcionava também a tranquilidade necessária para desenvolver parte do seu importante trabalho dedicado à história e à cultura da língua portuguesa.
Hoje, caminhar junto ao Leça é reencontrar estas memórias e, ao mesmo tempo, descobrir uma paisagem que está a recuperar o seu lugar na vida da Maia.
Entre a força da água, a pedra das pontes e o silêncio dos antigos moinhos, o Rio Leça convida a uma descoberta feita sem pressa.