2026-09-10 | Notícias
Durante a Quaresma, as ruas e caminhos de várias freguesias da Maia transformam-se em cenários de fé, tradição e encontro. As Procissões dos Santos Passos continuam a preservar uma das manifestações mais marcantes da identidade cultural do concelho.
No Castêlo da Maia, Cidade da Maia, Moreira e Nogueira e Silva Escura, a tradição dos Passos do Senhor atravessa gerações. Durante a Quaresma, as comunidades percorrem um itinerário que evoca o caminho de Jesus Cristo até à crucificação, numa celebração que combina espiritualidade, património e participação comunitária.
Estas procissões ganharam particular expressão a partir dos séculos XVII e XVIII, num contexto marcado pela espiritualidade e pela teatralidade barrocas. As pequenas capelas e os chamados “passos” tornam-se, assim, pontos fundamentais de um percurso onde a arquitetura, a escultura e a devoção se unem.
No Castêlo da Maia, a tradição encontra uma das suas expressões mais antigas e emblemáticas. Já em 1758, a Memória Paroquial descrevia os passos da antiga freguesia de Barca como capelas e oratórios de pedra, com imagens que recriavam os diferentes momentos da Paixão de Cristo.
Também em Nogueira e Silva Escura, o percurso ganha uma dimensão especial: a procissão sobe desde o Largo de Barroso, onde se encontra a Capela do Encontro, até ao Monte do Calvário, acompanhando a imagem do Senhor dos Passos.
Em Moreira, destacam-se as capelas que acompanham o percurso processional, enquanto na Cidade da Maia a tradição integra-se no próprio contexto urbano.
As capelas dos Passos apresentam uma verdadeira “gramática” artística, representando diferentes momentos da Paixão: a Oração no Horto, a Prisão de Jesus, a Flagelação, a Coroação de Espinhos, a Condenação e a Crucificação. Juntas, formam uma narrativa que ganha vida através da participação de toda a comunidade.
Os Passos são também feitos de encontro. Ao lado da dimensão religiosa, permanecem as memórias das romarias, das conversas, das famílias reunidas e dos sabores tradicionais — das farturas ao algodão-doce. São momentos que aproximam gerações e reforçam o sentimento de pertença.
Hoje, para crentes e não crentes, acompanhar estas procissões é também uma forma de conhecer uma parte importante da história e da identidade da Maia. Uma tradição onde o sagrado e o profano caminham lado a lado e onde os antigos “sermões do encontro” continuam a ecoar na memória coletiva.
Os Passos do Senhor são, afinal, também os nossos: caminhos de fé, de memória, de encontro e de comunidade.